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12/04/2017
Fonte: Globo Rural

Saiba a história e como preparar a pascha, símbolo da Páscoa ucraniana

Nesta época do ano passado, precisamente no Sábado de Aleluiavéspera da Páscoa, uma multidão de mais de duas mil pessoas passou pela peculiar Igreja São Josafat, em Prudentópolis, região centro-sul do Paraná. No longo período das 8h às 17h, fiéis da cidade inteira se dirigiram àquela construção de estilo bizantino. Na calçada que a circunda, formaram um cordão humano fervoroso, que aguardava com cestas decoradas – e repletas de pães, ovos, carnes e outros itens – sua vez de receber do pároco a bênção para aqueles alimentos, que seriam consumidos na ceia matinal do dia seguinte.

 
pêssankas-ovo-pascoa-ucrania (Foto: Leandro Taques)
Pêssankasas, ovos pintados à mão (Foto: Leandro Taques)

É dessa maneira incomum que os moradores da cidade, de 50,6 mil habitantes, vêm vivenciando a data cristã, há mais de 100 anos. Na cidade, em torno de 70% da população descende de imigrantes ucranianos (ou ucraínos, como eles preferem dizer), que chegaram ao local no final do século XIX. Ao longo das décadas, a Igreja Católica local desempenhou papel fundamental na valorização e preservação das tradições. Ainda hoje, a maior parte das missas é celebrada em ucraniano e a alimentação, os rituais e os símbolos típicos poucas alterações sofreram.

Neste mês, como esperado, tais festejos se repetiram. E, entre os muitos elementos simbólicos próprios da Páscoa celebrada em moldes ucranianos, dois conservam especial relevância: a pascha, principal alimento da festa, e as pêssankas, ovos pintados à mão com desenhos de significados variados. O primeiro, um pão salgado de sabor simples, representa, nas palavras do pároco da cidade, Eufrem Krefer, “o Cristo ressuscitado, que vem a nós como alimento espiritual, por meio da palavra, da bênção e da eucaristia”.

Na cidade e na zona rural do município, a obediência às tradições é idêntica. A influência da Igreja Católica “ucraniana”, com missas celebradas no idioma homônimo, é reforçada pela existência de 34 templos de estilo bizantino espalhados pelas comunidades agrícolas de Prudentópolis. A eles o povo também se encaminha com suas cestas, seguindo a prática de enchê-las com a pascha, a babka (pão doce semelhante a um panetone), carne de porco, linguiça, a típica krakóvia (embutido de sabor parecido ao da linguiça), requeijão, ricota ou manteiga (às vezes, modelada em forma de carneiro), sal, uma raiz forte chamada krim, ovos e pêssankas. Cada componente refere-se a um momento da crucificação, morte e ressurreição de Jesus.

 

As pêssankas, hoje vinculadas à comemoração da Páscoa cristã por ucranianos e poloneses, datam, entretanto, da era pré-cristã. No folheto da Paróquia São Josafat, explica-se que o costume de pintá-las já existia antes do nascimento de Cristo, associado ao começo da primavera e à ideia de renascimento da vida da natureza. Era comum também relacionar os ovos à vida e à morte e levá-los pintados para o cemitério. Com a adaptação das crenças ao cristianismo, as pêssankas passaram a simbolizar a ressureição de Cristo.

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Vera Lucia Daciuka, neta de ucranianos (Foto: Leandro Taques)

“A base da fé é a ressurreição, e o ovo é o símbolo da vida nova”, explica o padre Krefer. O pároco conta que, na cidade, muitos já não conhecem as técnicas de pintura dos ovos. Por isso, optam por comprar exemplares artesanais para presentear amigos e parentes. Uma das artesãs dedicadas à arte milenar é Vera Lucia Daciuk, 48 anos. Neta de ucranianos, ela aprendeu a história e os métodos de produção de pêssankas em um curso ministrado na cidade. “Como entrei em um colégio de freiras muito jovem, convivi pouco com meus pais e não herdei essa tradição deles. Mas meu sonho era aprender a fazê-las”, afirma.

pessanka-talisma-pascoa-ucrania-pasha (Foto: Editora Globo)

Com instrumentos simples e firmeza nos traços, adquirida em 16 anos de experiência na atividade, Vera dá forma e cor às cascas de ovos de codorna, garnizé, avestruz, ganso e o mais usado, de galinha. Pela entrega ao trabalho, maior ainda nesta época, ela raramente tem tempo para preparar sua cesta. “Como toda a família vem de fora para a casa de minha sogra, ela se encarrega de assar a carne, cozinhar os ovos, juntar as pêssankas e levar tudo para a bênção. No domingo de manhã, por volta das 8h, arrumamos a mesa, cantamos um hino sobre a ressurreição e depois ceamos”, conta a artesã. Com reflexão, fartura e arte, a Quaresma se encerra.

Receita de pascha

Preparada por Joanina Colecha, quituteira de Prudentópolis

Rendimento: 1 pão
Tempo: 1 ou 2 horas  
Dificuldade: média

Ingredientes
  ½ quilo de farinha de trigo
  1 copo (tipo americano) de leite
  1 ovo
  ½ colher (sopa) de manteiga
  ½ colher (sopa) de sal
  ½ colher (sopa) de açúcar
  1 colher (sopa) de fermento
  ¼ colher (sopa) de banha de porco

Modo de preparo
Em uma bacia, dissolva o fermento no leite ligeiramente amornado. Deixe formar uma levedura para depois acrescentar o ovo, o açúcar e o sal. Adicione a manteiga e a banha de porco, mexa e acrescente aos poucos a farinha de trigo. Sove a massa até ela ficar macia e desgrudar das mãos. Se ela estiver muito seca, acrescente um pouco de água. Coloque a massa para descansar na própria bacia, cubra com um pano limpo e deixe crescer por 20 minutos ou pouco mais. Depois, sove-a novamente e, em seguida, acomode-a em uma forma redonda (pode usar também uma forma de pudim) untada com óleo e farinha de trigo. Cubra de novo com um pano e deixe crescer por mais uns 20 minutos. Faça enfeitinhos na massa se você souber ou só pincele com a gema de um ovo. Leve ao forno alto e, quando ela começar a dourar, abaixe o fogo para que a massa fique bem assada por dentro. Demora em torno de uma hora para que ela fique pronta. Sirva com manteiga, requeijão ou outros produtos semelhantes aos da cesta, como linguiça, embutidos e carne.

              
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