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Editoriais

04/04/2008
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

A 'conspiração' do dossiê

Um gol contra do senador tucano Álvaro Dias permitiu ao governo empatar o jogo de aparências, ou melhor, a pelada, que disputa com a oposição a propósito do chamado dossiê das despesas do então presidente Fernando Henrique e de sua mulher, Ruth Cardoso. A existência do papelório - 13 páginas de planilhas que discriminam gastos palacianos efetuados em 1998, 1999 e 2001 - foi revelada pela revista Veja. Desde então, a partida se acirrou. O jornal Folha de S.Paulo atribuiu à principal assessora da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, Erenice Garcia, a responsabilidade direta pela organização de um arquivo paralelo ao sistema de controle de suprimento de fundos para a Presidência, do qual fariam parte os tais papéis. A ministra negou o dossiê. Disse que se tratava de um banco de dados. Ofereceu explicações contraditórias, nenhuma delas convincente, para a decisão de montá-lo. A iniciativa, em todo caso, já tinha sido noticiada por este jornal em 19 de fevereiro.

É absolutamente certo que - na esteira das informações sobre o aumento da ordem de 900% dos gastos do governo com cartões corporativos a contar da primeira posse do presidente Lula - os operadores políticos do Planalto tentaram calar as demandas da oposição pelo fim do sigilo que encobre a natureza dos dispêndios para o primeiro mandatário e sua família. Ameaçaram divulgar sub-repticiamente supostas despesas injustificáveis, quando não constrangedoras, do antecessor. Além disso transpirou que, numa reunião reservada com empresários, em São Paulo, Dilma avisou que “não vamos apanhar quietos”. A autorização do ex-presidente para que fossem liberados os dados que lhe dissessem respeito desarmou a chantagem governista. Ao lulismo, com ampla maioria na CPI dos Cartões, só restava passar o rolo compressor sobre os pedidos da oposição, como o de convocar a ministra a depor. No entanto, esse mesmo poder do governo de esvaziar a investigação parlamentar deixava escancarada a sua derrota moral no embate.

Nesse pé estava a peleja quando, na quarta-feira, da tribuna do Senado, o representante do Paraná admitiu ter recebido o momentoso dossiê antes ainda da instalação da CPI, em 21 de fevereiro. Dias se recusou a identificar quem lhe repassou os papéis, os quais, com toda a probabilidade, ele mesmo fez chegar à imprensa, mais adiante. Era o que os governistas queriam ouvir para sair da defensiva, lançando areia na questão que efetivamente interessa - a confecção, em pleno Palácio do Planalto, sob as barbas do presidente Lula, portanto, do que tudo indica tratar-se de uma torpeza política. Os planaltinos se sentiram à vontade para desenvolver a teoria conspiratória segundo a qual um tucano, infiltrado na alta administração federal e acumpliciado com um parlamentar correligionário, extraiu de uma documentação preparada com fins lícitos - o tal do banco de dados - uma seleta de informações que, uma vez vazadas, fariam crer que a Casa Civil é que armava o golpe baixo do dossiê.

A intenção do suposto agente provocador seria deixar mal a ministra que o presidente Lula carrega para cima e para baixo, e chama de mãe do PAC, a fim de que o eleitorado associe a sua figura à dele, tendo em vista a sucessão de 2010. Anteontem, Lula se pôs a defendê-la com palavras retumbantes - “a pessoa que presta um serviço ao País que a Dilma presta não pode ser vítima de uma chantagem política”. (O que não elimina a hipótese, ventilada desde a primeira hora, de que o vazador misterioso seria um companheiro com razões próprias para sabotar uma eventual candidatura Dilma.) “Quem montou o dossiê é quem fez a espionagem”, diz o líder do governo no Senado, o peemedebista Romero Jucá. Retruca o líder do DEM, senador Agripino Maia: “Essa discussão é uma cortina de fumaça. Se quiserem mesmo esclarecer os fatos, façam como o presidente Fernando Henrique e acabem com essa história de sigilo.” Seria, obviamente, a única maneira de encerrar rapidamente os trabalhos dessa CPI que, até o surgimento do caso do dossiê, ficou sem ter o que fazer. O problema é que o presidente Lula, que já conhece as contas do ex-presidente, não está disposto a divulgar as suas próprias.

Eis por que a CPI dos Cartões parece condenada a morrer por asfixia. Anteontem, a presidente da comissão, a senadora tucana Marisa Serrano, dizia que está pronta para encerrá-la. “Fiz o que pude”, disse, cansada de não poder fazer nada.
              
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