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29/04/2008
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

Não é hora de retranca

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda poderá provocar uma corrida aos supermercados, se continuar falando sobre o risco de escassez de arroz. Há muitos anos não ocorre uma crise de abastecimento no Brasil e a oferta de arroz deverá ser mais que suficiente para o mercado interno e até para uma pequena exportação, neste ano, se as famílias continuarem a comprar normalmente e não se criar um ambiente propício à especulação. A disponibilidade será maior no próximo ano, se os produtores puderem desfrutar dos preços mais que compensadores, em 2008, e forem estimulados a ampliar o plantio para a safra 2008-2009.

O Brasil, disse ontem o presidente Lula, não pode exportar arroz antes de uma avaliação da nova safra. Não se deseja, acrescentou, correr o risco de falta do produto. Foi uma recaída. O falatório havia começado na semana passada, quando o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, anunciou a decisão governamental de suspender as exportações de arroz. No dia seguinte ele tentou corrigir a trapalhada negando a intenção de proibir as vendas externas do setor privado. Para limitar a alta de preços no mercado interno, acrescentou, o governo começaria a leiloar semanalmente 55 mil toneladas de seus estoques.

O ministro teria feito melhor se não houvesse começado essa conversa. Em todo o mundo os preços dos alimentos têm subido e o Brasil não ficaria imune a essa tendência. Não há de fato escassez física de comida, nem no Brasil nem no mercado internacional, mas a maior parte dos estoques tem diminuído, a demanda tem continuado a crescer e a tudo isso se acrescenta um forte componente especulativo. De acordo com as últimas projeções do governo americano, os estoques mundiais de arroz, no fim da atual temporada, deverão corresponder a uns 18% do consumo global. Serão baixos, mas o grande problema, neste momento, não é a falta do produto e sim o aumento das cotações, com efeitos desastrosos nos países pobres.

No Brasil, as condições de oferta, em 2008, são mais apertadas do que nos anos anteriores, mas suficientes para as necessidades nacionais. Segundo a última estimativa oficial, a atual safra deve chegar a 11,95 milhões de toneladas. Esse volume, somado a um estoque inicial de 1,85 milhão, é mais que suficiente para um consumo da ordem de 13,1 milhões de toneladas. Somando-se a isso uma importação prevista de 900 mil toneladas, sobra algum produto para exportação. Se o volume exportado ficar em 400 mil toneladas, como se projetava até recentemente, sobrará um estoque de 1,2 milhão de toneladas no fim da temporada. Se ninguém balançar muito o barco, a travessia será segura até o começo da próxima colheita.

Neste momento, a decisão mais produtiva, no caso do governo, seria definir logo as condições de apoio ao próximo plantio. Se um bom plano de safra for anunciado já em maio, os produtores terão tempo de fazer suas escolhas e de preparar-se para o trabalho no segundo semestre. Quanto à política de intervenção no mercado, o melhor será conduzi-la com cautela. Não é o caso, agora, de derrubar os preços do arroz, mas apenas de neutralizar tentativas de especulação. Os preços das últimas semanas, em torno de R$ 30 por saca, têm sido suficientes, pela primeira vez em quatro anos, para cobrir os custos com uma pequena folga.

As condições do mercado internacional com certeza imporão, ainda por algum tempo, um sacrifício aos consumidores brasileiros - nada comparável aos problemas enfrentados pelas populações dos países mais pobres. Mas o Brasil é um dos países mais preparados para atender à demanda no mercado internacional. O mercado interno será beneficiado, se a agropecuária brasileira responder aos novos estímulos externos.

Uma boa política exigirá, como condição preliminar, uma atitude realista da parte do governo. Realismo, antes de mais nada, é o reconhecimento dos custos elevados. Com a alta do petróleo, adubos e fertilizantes, transportes e uso de máquinas têm ficado mais caros. Parte da contribuição do governo deverá consistir na descoberta de meios para reduzir os custos de produção e de transportes. Jogar na retranca não resolverá nenhum problema e ainda resultará no desperdício de boas oportunidades.
              
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