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04/06/2008
Fonte: Jornal Folha de São Paulo

Bois no colete

Só ação concertada do governo pode melhorar situação na Amazônia; arroubos performáticos são dispensáveis

QUANDO AS comédias "stand-up", em que um artista solitário tenta arrancar gargalhadas da platéia, voltam a emplacar no show business, surge o ministro Carlos Minc. Se falta graça às tiradas do novo titular do Meio Ambiente, sobra-lhe disposição de entreter.

Talvez a culpa seja do presidente Lula, que recomendou ao ministro que fosse criativo e tivesse muitas idéias no cargo -estímulo em excesso para alguém que já tachava de "performático" seu próprio estilo. Do anedótico colete do ministro, de onde já sacara especulações como o uso de militares na defesa da floresta, acaba de sair novo factóide: a chamada operação boi pirata.

Diante do aumento da devastação amazônica, tendência confirmada por reiteradas medições de satélite, Minc promete uma ofensiva para prender bois em pastos ilegalmente desmatados. A sugestão lembra em mais de um aspecto a pantomima da caça ao boi gordo no pasto, ocorrida há mais de duas décadas, quando o Plano Cruzado agonizava.

Daquela feita, como agora, tratava-se de iludir o público com uma reafirmação encenada de autoridade imperial do governo, quando os fatos já haviam se encarregado de desmoralizá-la. A aparição de Carlos Minc como um Indiana Jones de madeixas a perseguir novilhos em fuga pode até render uma performance, mas não vai melhorar a perspectiva para a Amazônia.

O arcabouço normativo, a capacidade do Estado de aplicar as leis e a realidade econômica e social estão em profundo desacordo naquela região cada vez mais importante para o Brasil. Os avanços registrados pela política pública federal e estadual nos últimos anos não foram capazes de invalidar a equação fundamental do desmatamento, que dispara quando o preço dos produtos agrícolas aumenta.

Pelo menos no âmbito do governo federal, a dicotomia de objetivos entre a política agrícola e a política ambiental deveria ser equacionada. Sem soluções de compromisso entre um e outro setor, devidamente mediadas pela Presidência, o Estado vê diminuir ainda mais o seu poder de combater as causas do desmatamento amazônico.

É preciso, nesse processo, favorecer um pacto pelo aumento da produtividade no campo nas extensas áreas já degradadas do país; pela regularização fundiária definitiva da Amazônia; pela normatização ecológica e econômica, por meio de zoneamento, da atividade agrícola em solo nacional; pela instituição de mecanismos, regulatórios e de mercado, que inibam o consumo de produtos oriundos do uso irregular da terra; pela exploração racional da floresta; pela multiplicação das ferramentas de fiscalização e controle na região amazônica.

Esse, por certo, não é um roteiro adequado aos monólogos performáticos de Carlos Minc. Requer um grande elenco ministerial, sem prescindir do protagonista, o presidente da República.

              
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