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17/06/2008
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

O canário morreu

O metano é gás inodoro e letal para quem o aspira. Por isso, à falta de tecnologia avançada, os mineiros de carvão do passado levavam sempre para o trabalho um canário, bicho altamente sensível ao gás.

A função desse pássaro não era cantar; era detectar a presença do perigo. Sua morte alertava que o gás escapara de algum bolsão de rocha e que não havia o que fazer senão abandonar o local o mais rapidamente possível.

O Banco Central tem lá seus canários detectores de inflação. Em janeiro morreu o primeiro. Mas demorou para que o mercado se convencesse de que o ambiente ficou irrespirável. Agora as expectativas estão em rápida deterioração.

Ainda há quem torça o nariz quando se mencionam expectativas de inflação, como se não fizessem parte do universo real em que atuam os fatos econômicos. E, no entanto, uma das funções mais importantes de um banco central na execução de sua política monetária (política de juros) é atuar sobre as expectativas dos agentes econômicos.

Assim, se está convencido de que a inflação está em queda, um marcador ou remarcador de preços segura o ajuste para cima. Ele sabe que, se exagerar, corre o risco de encalhe de mercadorias e de perder participação de mercado. Mas, se está convencido do contrário, se antecipa com as remarcações porque também não pode correr o risco de perder faturamento ou capacidade de reposição de estoques.

A rigor, um banco central tem canários para detectar perigos diferentes. Um deles detecta a inflação. Outro, o nível das expectativas dos agentes econômicos.

Este segundo canário é a Pesquisa Focus, que faz levantamentos semanais em cem instituições, empresas e consultorias. Detecta como o mercado está projetando a inflação e outros números-chave da economia.

E o que dá para saber dele é que a expectativa de inflação no Brasil ficou fortemente deteriorada. O mercado trabalha com inflação já mais próxima do teto da meta. E, se nada ocorrer, em uma ou duas semanas poderá ultrapassá-lo. A Pesquisa que saiu ontem já apontava expectativa de 5,8% para este ano (a meta, com o desvio tolerado, é 6,5%). O que mais preocupa não é a deterioração das expectativas; é a velocidade com que se deterioram.

Ainda há no governo notória divergência de diagnósticos e de estratégias de reação. O ministro Guido Mantega insiste em que a inflação está concentrada na alta dos alimentos e do petróleo - portanto, preponderantemente importada (definida nas bolsas internacionais de mercadorias) -, sugerindo que não há muito o que fazer.

Enquanto isso, sem negar a parte importada, o Banco Central põe ênfase em dois fatores simultâneos: na inflação de demanda, que é determinada pelo consumo mais alto do que a capacidade de oferta; e na difusão da inflação importada sobre o resto da economia. Assim, adverte que tem de ser combatida com aumento de juros e contenção de despesas públicas.

Ontem, o presidente Lula pediu a Mantega e a Meirelles ênfase no discurso contra a inflação. É pouco. Mais que discurso, é preciso determinação. E, no entanto, a divergência de diagnósticos é, por si só, sinal de fraqueza. Felizmente, há tempo. Até agora, só há dois canários mortos.

Confira

Divergência no G8 - Enquanto o secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, e o ministro das Finanças inglês, Alistair Darling, insistiam em que a inflação global tem base nos fundamentos da economia, o ministro da Economia da Itália, Giulio Tremonti, e a ministra das Finanças da França, Christine Lagarde, insistiam em que é a especulação financeira.


Darling assim observou: “Às vezes é difícil distinguir entre a operação de uma companhia de aviação que vai ao mercado para se defender da alta dos combustíveis, o que é uma operação de boa governança, e a especulação pura e simples com o preço do petróleo.”

              
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