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17/07/2008
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

A inflação não espera

A inflação não espera

O Brasil deve combater a inflação sem esperar medidas de outros países. Se a China enfrentar logo o problema, tanto melhor. Se não o fizer, isso não justificará a inércia dos brasileiros, porque também aqui a demanda excessiva facilita o aumento de preços. Isto resume em boa parte a mensagem levada ao Senado pelo presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles. Ele reafirmou o compromisso de trabalhar com vigor para conduzir a inflação, em 2009, ao centro da meta fixada pelo governo, 4,5%. Foi uma repetição oportuna, especialmente depois das perguntas formuladas pelo senador Aloizio Mercadante. Se a China é a grande responsável pela grande procura de petróleo, cimento, aço e outros produtos básicos, valerá a pena elevar os juros para conter a alta de preços no Brasil? Não será um sacrifício inútil? A resposta de Meirelles foi clara: as principais pressões podem vir de fora, mas a economia brasileira, hoje, oferece condições para repasse e amplificação dos aumentos e para a elevação das expectativas inflacionárias. É preciso agir agora ou, mais tarde, será necessário esforço muito maior e mais penoso, principalmente para os trabalhadores.

Enquanto Meirelles falava em Brasília, na terça-feira, o presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, apresentava seu relatório semestral aos senadores americanos, no primeiro de dois dias de depoimento perante os congressistas. A economia dos Estados Unidos, disse Bernanke, enfrenta várias dificuldades, com insegurança no mercado financeiro, persistência da crise das hipotecas, desemprego elevado e entraves ao crescimento. A atividade econômica, segundo ele, poderá recuperar-se lentamente nos próximos dois anos. Mas ele chamou a atenção para o risco crescente da inflação, alimentada principalmente pela alta de preços da energia e de vários produtos básicos.

Essa preocupação foi confirmada pela ata da última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), divulgada ontem. De acordo com a ata, os membros do comitê, responsável pela política monetária, estão agora mais inquietos do que antes com a evolução dos preços.

Também ontem, enquanto Bernanke falava na Câmara de Representantes, o governo divulgou a evolução dos preços ao consumidor. O índice aumentou 1,1% de maio para junho. Foi a segunda maior variação mensal desde 1982 e a maior desde 2005. Além disso, o índice de junho foi 5% maior que o de um ano antes.

Não há uma clara indicação, no entanto, de um aumento dos juros americanos na próxima reunião do Fomc, prevista para agosto. Se a inflação continuar elevada, o público poderá rever para cima suas expectativas inflacionárias de longo prazo, disse Bernanke. Isso influenciará a fixação de preços e salários. “Prevenir a instalação desse processo é uma responsabilidade crítica dos condutores da política monetária”, afirmou o presidente do Fed. Mas qualquer decisão, ressalvou, será um desafio para as autoridades, porque será preciso comparar cuidadosamente as perspectivas de inflação e de crescimento da economia. No caso dos EUA, onde a crise no mercado financeiro continua ameaçadora, a tarefa é particularmente complicada.

Também na Europa a inflação tem crescido, como mostram mais uma vez os números preliminares de junho. Na zona do euro, os preços ao consumidor crescem num ritmo anual próximo de 4%, o dobro da meta, mas o Banco Central Europeu já definiu como prioridade a contenção dos preços.

No Brasil, o crescimento econômico ainda se mantém vigoroso, apesar de alguns sinais de acomodação. Quanto mais rigorosa e mais determinada for a política antiinflacionária, menor será o custo para a economia, continua sustentando Henrique Meirelles. Em seu último Boletim de Conjuntura, a Confederação Nacional da Indústria reconheceu a ameaça dos preços em alta e deixou de criticar a elevação dos juros. Na terça-feira foi a vez da Fiesp. “Não podemos cair de pau sobre o Banco Central”, disse o diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da entidade, o empresário Paulo Francini. Se a inflação não for freada, argumentou, a cultura brasileira de reajustes e de repasses tornará o trabalho muito mais difícil. Falta boa parte do governo convencer-se dessa verdade.
              
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