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Editoriais

12/08/2008
Fonte: jornal O Estado de São Paulo

Câmbio e inflação

Nas duas últimas semanas o dólar mostrou forte reação no mercado internacional de câmbio, com impacto nas cotações internas, como mostram os gráficos.

Essa desvalorização do real diante da moeda americana tem um lado positivo na medida em que garante certa recuperação da competitividade do produto brasileiro: o dólar mais caro em reais barateia o produto de exportação e, ao mesmo tempo, encarece o produto importado. Como é de conhecimento de qualquer iniciante em economia, esse ajuste tende a estimular exportações e a conter importações.

Mas convém perguntar sobre outro efeito: qual o impacto dessa movimentação do câmbio sobre o custo de vida, num momento delicado para a trajetória da inflação, em que a meta deste ano, incluído aí o desvio admitido, deve ser ultrapassada.

Ao efeito sobre a inflação provocado pela trajetória do câmbio os economistas dão o nome de pass-through, expressão inglesa que pode ser traduzida por algo como repasse. Então, do ponto de vista técnico, a pergunta se resume a saber até que ponto o pass-through de um câmbio em acentuada recuperação não trabalha contra a política monetária (política de juros) do Banco Central.

Primeiramente, é preciso entender por que, depois de uma queda de quase dois anos e meio, o dólar está em alta diante do euro, justamente em meio a uma forte crise financeira e numa situação em que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) não está em condições de puxar pela alta dos juros e, portanto, pela valorização do dólar. Em seguida, cabe uma avaliação da leitura que o Banco Central do Brasil faz a respeito da relação entre o dólar e a inflação. E, em terceiro lugar, vêm as conclusões.

A acentuada recuperação do dólar sobre o euro está relacionada com a percepção de que a retração da atividade econômica na Europa será mais forte do que nos Estados Unidos. Ou que o ajuste da economia americana ocorreu antes e que, por isso, a recessão européia está algo atrasada. Assim como houve certo descompasso entre as cotações das moedas (alta do euro em relação ao dólar), agora esse descompasso se inverte.

Antes da adoção do sistema de metas de inflação (em 1999) e nos dois anos seguintes, o Banco Central dava muita importância ao impacto do câmbio sobre a inflação. Mas, de lá para cá, não o considera canal relevante de transmissão da política monetária. Tanto que, ao longo dos seis anos de valorização do real ante o dólar, não o tomou como elemento decisivo para controle da inflação.

O mesmo tratamento deve ocorrer agora. Isto é: seja qual for a desvalorização do real (alta do dólar), o Banco Central tentará tirar sua importância como fator de inflação. A experiência dirá se essa avaliação está correta ou não.

CONFIRA

Na moita - A Câmara dos Deputados aprovou ontem projeto de lei que substitui os juros nas dívidas em atraso dos produtores rurais. Sai o critério dos juros pela Selic (hoje de 13% ao ano) e entra o da TJLP, os juros do BNDES, hoje a 6,25%.

A decisão é de uma enorme perversidade por duas razões: primeira, porque, ao estabelecer juros substancialmente mais baixos do que a Selic, tira força da política monetária do Banco Central.

Em segundo lugar, cobra do produtor rural inadimplente juros muito mais baixos do que os que são pagos pelo produtor que cumpre seus contratos.
              
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