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02/09/2008
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

Além dos recordes

Tanto as importações como as exportações vêm batendo recordes sucessivos mas os analistas têm jogado mais foco de luz sobre o enorme crescimento das importações. Não se pode desprezar o alentado aumento das exportações, obtido num ambiente claramente adverso.

As importações acumuladas em doze meses (até agosto) crescem a um ritmo impressionante: são 49,4% mais altas do que em igual período do ano anterior. Mas as exportações crescem 25,5%, nada mau numa economia mundial em crise e, a dar corda a tantos prognósticos, à beira da recessão.

A força importadora tem a ver com o tombo do dólar no câmbio interno (valorização do real), na medida em que barateou em reais o produto pago em dólares. Mas este não é o único fator que puxou as importações e pode não ser o mais importante. A disparada também está relacionada com aumento dos investimentos e com o avanço do consumo interno, em cerca de 8%, acima do avanço do PIB, em cerca de 5,3%.

A indústria está usando o vento contra a seu favor na medida em que aproveita o dólar barato para trazer de fora máquinas, componentes (peças) e matérias-primas. As importações de máquinas e equipamentos crescem ao ritmo de 51,7% e a de matérias-primas e produtos intermediários, ao de 46,8%. A maior importação de componentes e autopeças é uma das explicações pelas quais os preços dos veículos novos não subiram mais do que 3,4% nos 12 meses terminados em julho (no período, a inflação avançou 6,4%).

Mais três observações. Primeira, as projeções do Ministério do Desenvolvimento para as exportações estão excessivamente conservadoras. A meta revisada para 2008 é de US$ 190 bilhões. É muito provável que as exportações ultrapassarão os US$ 200 bilhões, o que atesta o excelente desempenho, mesmo com um dólar fraco em reais, baixa das commodities e fraco desempenho do sistema produtivo do mundo rico.

Segunda observação: a corrente de comércio (exportações mais importações) vai dando um salto de 35,4% nestes oito primeiros meses do ano, em comparação com igual período do ano passado. Não se sabe bem por que, no Brasil, não se dá importância a esse indicador. E, no entanto, dada a história recente de excessiva dependência de poupança externa, o forte crescimento do fluxo de comércio produz um efeito importante e pouco percebido: deixa o mercado interno de moeda estrangeira (câmbio) menos dependente dos vaivéns de recursos. Como os mercados financeiros operam com enorme volatilidade, quanto maior o fluxo de dólares originados no comércio, mais estável tende a ficar o câmbio.

Terceira observação: a economia brasileira continua dependente demais das importações de combustíveis. Isso tem a ver com os atrasos no cumprimento de cronogramas de produção da Petrobrás, mas refletem, também, o forte aumento do consumo interno: nos primeiros oito meses do ano, o déficit da conta de petróleo saltou para US$ 5,4 bilhões, volume 135% mais alto do que o que se acumulara até agosto do ano passado.

Esperar para saber - Serão precisos alguns dias para um levantamento confiável dos estragos produzidos pelo furacão Gustav no Golfo do México, onde se produz 25% do petróleo americano. É o tempo necessário para o retorno dos operadores que deixaram suas casas no litoral e buscaram refúgio no interior do país.
              
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