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Editoriais

11/12/2008
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

Maus sinais para o campo

A exportação do agronegócio, principal fonte do superávit comercial brasileiro, pode encolher entre 5% e 10% no próximo ano, segundo projeção do Ministério da Agricultura. As vendas do setor renderam US$ 71,67 bilhões nos 12 meses terminados em novembro. O resultado foi um superávit de US$ 59,88 bilhões, de acordo com o Ministério. Se a estimativa de redução das exportações se confirmar, a perda não será apenas para os produtores e exportadores. A renda do agronegócio impulsiona a demanda não só de bens de consumo, mas também de máquinas, equipamentos e insumos da produção. Um bom ano para o campo é sempre um fator de prosperidade para a indústria e para o comércio. O governo tem, portanto, mais de um motivo para se preocupar com o desempenho da agropecuária em 2009.

A exportação de alimentos e de outros produtos do campo será afetada, no próximo ano, tanto pela contração da demanda externa como pela redução do crédito. Ao apresentar a projeção das vendas ao exterior, numa reunião com empresários, em São Paulo, o secretário de Relações Internacionais do Agronegócio do Ministério da Agricultura, Célio Porto, acentuou a importância do financiamento, especialmente para os exportadores de carnes.

Os dois fatores - a contração dos negócios e a escassez de crédito - são mencionados pelos economistas do Banco Mundial (Bird) em suas novas estimativas do comércio para 2009. Segundo o relatório Global Economic Prospects (Perspectivas da Economia Global), divulgado na terça-feira, o volume do intercâmbio deverá diminuir 2,1%. Se confirmada, será a primeira redução desde 1982.

A redução da demanda, conseqüência da recessão no mundo rico e de uma severa desaceleração nas economias em desenvolvimento, será o fator negativo mais importante para o comércio global, segundo os analistas do Bird. Mas o arrocho do crédito, acrescentam, já está limitando o financiamento da exportação. Além disso, a instabilidade nos mercados de câmbio dificulta as previsões e pode também prejudicar o comércio internacional.

Os preços dos produtos básicos, em alta a partir de 2003, continuaram a subir até meados de 2008, mas começaram a cair acentuadamente neste trimestre. “O abrupto declínio é uma clássica reação das commodities à desaceleração da economia global no fim de uma fase de grande crescimento. Esse declínio foi ampliado e acelerado pela crise financeira”, segundo os autores do relatório.

Em 2008, de acordo com o documento, os preços da energia ainda acumularão um aumento anual de 45,1%, apesar da queda recente das cotações. A alta anual dos preços agrícolas deverá ficar em 28,4% (no caso dos alimentos, 35,2%). Só no primeiro semestre, as cotações da comida aumentaram cerca de 50% e esse efeito ainda não foi totalmente anulado pela crise. Fortes quedas são projetadas para 2009: 25% para os bens energéticos (26,4% para o petróleo) e 28,4% para os agrícolas (35,2% para os alimentos). São boas perspectivas para os países pobres e mais dependentes da importação de comida, os mais duramente afetados, neste ano, pela alta de preços dos alimentos. A contrapartida é a possibilidade de perdas significativas para os produtores das potências agrícolas, como Brasil, Argentina e Austrália.

O governo brasileiro pouco poderá fazer para compensar a estagnação da economia global e a redução da procura de alimentos. Mas poderá, certamente, procurar meios de canalizar maior volume de crédito para os produtores e exportadores agrícolas. Isso será essencial para aliviar suas dificuldades em face da crise global.
A agropecuária tem desempenhado um papel de extrema importância para a economia brasileira, contribuindo para a estabilidade do custo de vida e para a robustez do balanço de pagamentos. A solidez do setor é um ativo precioso para o País e o governo deve fazer o possível para preservá-la. O plano de financiamento da safra 2008-2009 de grãos e oleaginosas, anunciado no meio do ano, simplesmente não foi executado como se pretendia. A crise financeira internacional contaminou o mercado interno e alterou amplamente as condições do jogo. Isso se refletiu no menor uso de fertilizantes e de outros insumos na fase de plantio, assim como na redução recente das vendas de máquinas agrícolas. Mas ainda se pode agir para atenuar os problemas nos próximos meses.
              
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